Além do Forte

I

“Saí de casa sem olhar para trás.

Eu seria capaz?

Onde está o forte?

Seria mesmo está a minha sorte?”

II

“Ao longe, um oficial

Um eco no abismo

Pensei ser o forte sensacional

O capitão, o engano, eu cismo.”

III

“Você quer ficar

Ou quer partir? ”

“Quero minha mamãe, posso ir? ”

“Quatro meses, você vai se acostumar. ”

IV

O céu lá fora tem estrelas.

Maldita cisterna.

Seria tão bom ver em sonho donzelas

Nuas numa taberna.

V

“E se eu fosse desertor?

Esse sargento leva tudo ao pé da letra.

Em um tempo distante, tive amor

Pelo dissabor que me penetra.”

VI

“Querida mamãe, receba esta carta

Cheia de mentiras.

Não dormir um dia me mata.”

O mar de chumbo e suas amarras.

VII

Quem tem capa

Nem sempre se escapa

De andar na moda.

O mundo gira mesmo não sendo uma roda.

VIII

Uma noite de baderna

Regada a vinho.

Os corvos nos ninhos,

Uns querem voar, outros estão em angústia eterna.

IX

O tenente tem outra doença.

Encontrou um novo lar.

Loucura dá descrença...

"Estou bem, quero ficar."

X

Enquanto esperamos o ataque

A vida fica em xeque.

Cascata rumorejante,

A água canta como nunca antes.

XI

O que podem os sonhos dizer?

Se for amar, que ame a vida.

Fantasmas, fadas.

O cortejo nem todos podem ver.

XII

"Quem vem lá?"

Não vem mais e não mais fala.

Durante a troca de guarda

O destino aguarda.

XIII

A morte veio antes da guerra.

Uma imprudência juvenil.

Quem é bom de tiro não erra.

Soldado falho, erro senil.

XIV

"Coronel, o inimigo vem.

Quais são as ordens?

Aguardam os homens."

"Algo falta, está além."

XV

Parece a subida do Purgatório.

Cartas e o jogo da vida.

Quem manda mais nesse peremptório?

A frase inacabada não quer dizer nada...

XVI

Absurdo que a guerra venha do Norte.

Tenente, o major vê esperança

Busque a temperança

Abandone a honra, espere a morte.

XVII

As mesmas caras

De tudo aqui, cansei

Esforço de ficar onde antes amei

Tudo o mesmo, nenhuma coisa rara.

XVIII

“Mãe, em casa estou.”

O quarto e o querido diário.

O juvenil amor é temerário.

Toque do clarim não soou.

XIX

A Maria é como a primavera

O coração bate forte. E o forte?

“Ela está diferente, algo mudou, já era.”

Ele também mudou, um resto de amor, um corte...

XX

Mamãe mexeu os pauzinhos.

Para ajudar seu filhinho.

A fofoca rola sobre o novo regulamento.

Quatro anos e a falta de contentamento.

XXI

Drogo, a casa-forte retorna.

O tédio é amarelo

Nesses invisíveis elos.

Quem fica, quem parte? A mentira orna.

XXII

Pode-se ver na luneta

Ao longe, uma estrada.

“Terei glória nessa estada. ”

O inimigo vem, amolem as baionetas.

XXIII

"Não acreditas mais?

Agora que creio...

Não era para levar a sério?"

A descrença não afeta Satanás.

XXIV

E lá vem o tempo correr,

Escorrer por entre os dedos.

Invernos desgastados.

A luz volta depois do entardecer.

XXV

Montanhas inabaladas. Quando vem a guerra?

Em casa, ninguém a espera.

Um novo velho encontro, papéis invertidos

O futuro chegou e é a cara do passado.

XXVI

O inimigo não veio.

Vida que segue.

A velhice não tem rodeios.

A juventude que desassossegue.

XXVII

"O que fazer com essa canseira?"

"Preparem a artilharia

e a infantaria."

Primeiro tiro, morte primeira.

XXVIII

Doente não pode lutar, não.

Nem o sabre consegue usar de fato.

“Não abandono este quarto. ”

A carruagem, a ordem, a insubordinação.

XXIX

Na última viagem, a glória perdida.

Lágrimas e o silêncio.

A vida tem seu ócio

Encharcada de partidas.

XXX

Quarto desconhecido,

O tenente pena abatido.

Músicas de consolo.

Não podem mais enganá-lo.

O último inimigo.

Fim do caminho de todos.

O negro umbral ultrapassando.

“Quem vem lá é amiga ou amigo? “

Telly Martins

Telly S.M. poeta e escritor underground das redes sociais.

Escrevo porque o universo não conspirou a favor.

Por último, mas não menos importante, poeta do canal Bruna e Livros no Youtube.

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