A Mulher que Pariu um Livro

Um grito de horror feminino no meio da madrugada nunca deve ser ignorado.

Rodolfo, após trabalhar trinta anos como escriturário concursado no serviço público da prefeitura de sua cidade, acreditava ter encontrado a paz. Havia comprado uma televisão nova com o objetivo de assistir à Copa do Mundo e finalmente teria mais tempo para as mulheres da sua vida, sua esposa Greta e sua filha Huna, mas naquela manhã, após uma madrugada em que todos os integrantes daquela casa tiveram sonhos estranhos, ele percebeu que sua aposentadoria não seria tão tranquila.

Sua filha saiu do quarto, assustando Dinamite, o vira-lata caramelo da família que estava deitado no tapete da sala. Nos últimos tempos, o cão só vivia assim, dormindo, cansado de perseguir os motoboys na rua, agora tentava ter uma velhice tranquila. A jovem correndo, passou pela sala em direção ao banheiro pela segunda vez naquela manhã, vomitando quase as tripas. Nesse segundo mal-estar, sua esposa saiu da cozinha e foi atrás da jovem. Ao ver aquela cena, na sua cabeça só passava uma coisa:

“Que absurdo... Essa menina comeu algo que não fez bem a ela.”

À noite, na cama, quando se deitou, a esposa já estava à sua espera, fazendo seu crochê terapêutico com o semblante muito sério. Dona Greta tomou a iniciativa da conversa:

– Temos um assunto muito sério para conversar.

Mais de trinta anos de casamento mostraram àquele homem que os diálogos com sua esposa nunca eram fáceis e até quando ele ficava calado estava sempre errado. Olhando para a esposa que trazia um olhar firme, ele perguntou:

– O que aconteceu?

A mulher não gostava de rodeios e foi direto ao assunto:

– Nossa filha está grávida.

– Isso é um absurdo... tem dois meses que ela não sai de casa. Quem é o pai, o Divino Espírito Santo ou Dostoievski? Essa menina passa o dia lendo livros e com a cara no computador, só sai do quarto quando vai ao banheiro.

Huna era professora de língua portuguesa e não saía de casa há dois meses após um colapso nervoso em sala de aula. A mãe nunca deixava a filha esquecer da medicação. Todo esse tempo trancada no quarto, se dedicava à leitura de seus livros, que sempre foram a paixão da sua vida, e à divulgação de seus textos na internet em um site gratuito para escritores.

– Você, além de ser um homem muito insensível, não entende desses assuntos femininos. Huna é uma mulher moderna, não precisa de marido nem de pai para o seu bebê, vai ser mãe solo e uma excelente mãe. Amanhã temos que levá-la ao médico.

– Certamente, tem que ir ao médico com urgência, amanhã vai se consultar com o psiquiatra sem falta.

Mãe e filha estavam no consultório, o médico pediu que o pai esperasse do lado de fora. A jovem trazia nas mãos seu romance gótico do século XIX favorito e demonstrava muita ansiedade diante do psiquiatra.

– Doutor, não consigo entender o motivo pelo qual meus pais me trouxeram para consultar com o senhor. Eu deveria ir a um obstetra, estou grávida, estar nesse local não faz o menor sentido.

– Seus pais te trouxeram ao lugar certo, minha jovem. Além de psiquiatra, eu sou obstetra, sou apaixonado por medicina e, se eu pudesse, atuaria em todas as áreas dessa ciência tão vital para a humanidade.

– Sério, doutor, o senhor vai me examinar agora?

– Sim, eu vou lhe examinar agora.

– Minha mãe pode ficar aqui no consultório e acompanhar o exame?

– Claro que sim. A senhorita pode se deitar naquela maca, por favor?

A mãe acompanhava tudo com extrema curiosidade.

O médico, sempre com o semblante carregado, apalpou o abdômen e os seios da jovem, colocou o estetoscópio em vários pontos da sua barriga, coçou o queixo e, depois de muito pensar, finalmente disse:

– Está confirmado, você realmente está grávida. Meus parabéns.

Dos olhos das duas mulheres escorreram lágrimas de emoção.

Saíram do consultório em êxtase, o médico pediu que o pai entrasse para conversar em particular com ele. O doutor Edgar estava empolgado, nunca tinha visto nada antes parecido com aquilo em mais de vinte anos de profissão.

– Então, doutor, como está minha filha?

– Ela está grávida.

– Isso é um absurdo...

– Sua filha, além da sua doença mental, desenvolveu pseudociese.

– Pseudo o quê?

– Pseudociese, gravidez psicológica, é um caso raríssimo. Sua filha sentirá tudo que uma mulher grávida sente, mas é claro que tudo isso na mente dela.

– E minha esposa? Ela também está doente, doutor?

– Sua esposa está com "pseudoylaylá".

– Pseudo o quê?

– Sua senhora está muito emocionada com o fato de saber que vai ser avó. Acredita que sua filha está grávida. Creio que Dona Greta seja o primeiro caso de "pseudoavó", fazendo com que seja um caso único na história da medicina.

– Doutor, isso é contagioso? O que eu faço? Deus do céu, que absurdo...

– Fique tranquilo. O senhor tem que ter muita paciência e não pode contrariar as duas. Sua filha deve continuar com as mesmas medicações normalmente. Tudo vai ficar bem...

– Não contrariar minha esposa e minha filha foi o que fiz a vida toda.

Na volta para casa, dentro do carro, as mulheres faziam planos:

– Sempre foi meu sonho ser avó.

– Ser mãe é uma bênção, não é, mamãe?

– Sim, minha filha...

O pai tentava se concentrar no trânsito, fazendo de tudo para não enfiar o carro debaixo de um caminhão.

Nos cinco primeiros meses, Rodolfo tentou fingir que estava tudo bem, porém fingir nunca foi sua melhor habilidade. As mulheres da família, muito ansiosas, somente se ocupavam dos preparativos para a chegada do novo integrante da família. Dinamite passava os dias deitado, só levantava para o necessário, nem latir queria mais.

Huna tinha uma fome que não cessava. Sua mãe, cozinheira de mão cheia, nunca deixava sua filha sem lanchar pelo menos quatro vezes ao dia, sem contar os assaltos que a jovem fazia à geladeira de madrugada. Estando sempre bem alimentada, a mudança no seu corpo não demorou a aparecer: os seios ficaram volumosos, as coxas ficaram roliças, seu quadril de mulher parideira beirava a perfeição de tão grande. É claro, essa metamorfose para elas era consequência da "gravidez".

Rodolfo teve que levá-las ao centro da cidade para fazer compras para o enxoval. Após se despedir delas e combinar o horário de buscá-las, foi até o RH da prefeitura da sua cidade. Isaias, escriturário, ex-companheiro de trabalho, o atendeu com bastante atenção:

– Rod, meu velho amigo, o que você manda? Diga-me tudo, não me esconda nada, vamos tomar um cafezinho.

– Isaias, eu queria saber com você se tem como eu voltar a trabalhar aqui.

– A nova legislação não permite mais que o funcionário público trabalhe na prefeitura após a aposentadoria.

– Isso é um absurdo...

– Agora que é a hora de curtir a aposentadoria, meu amigo quer continuar a trabalhar. Está com problemas em casa?

– Mais ou menos. Minha filha está grávida.

– Criança é uma bênção na vida da gente e finalmente meu amigo vai ser vovô.

– Não sei nem o que pensar sobre isso.

– Infelizmente, nessa questão não posso lhe ajudar, mas se você quiser vir aqui tomar um café e conversar, fique à vontade. Você poderia voltar a fazer caminhada, pode lhe fazer bem, está meio fora de forma.

– Vou pensar no seu caso, tenho que ir, está quase na hora de buscá-las.

– Vai lá, meu amigo, vai com Deus.

– Amém! Fica com Deus também.

– Amém...

Na volta dentro do carro, era sempre a mesma alarida interminável entre mãe e filha. Com muito custo, Rodolfo conduziu o carro até sua casa.

Na manhã seguinte, Huna, em seu quarto, terminou mais uma de suas leituras. O amor pelos livros lhe deu forças no período da depressão provocada pelo surto que teve enquanto trabalhava na escola. Sentiu algo se mexer em seu ventre, foi até a porta do quarto e chamou sua mãe, que logo veio ver o que havia acontecido. O pai, que estava na porta saindo para a caminhada, voltou e viu sua mulher alisando a barriga da filha. Dinamite, deitado no tapete, observava tudo estupefato.

– Você sentiu, mamãe? Ele se mexeu.

– Senti sim, minha filha.

Ao ver aquela cena, Rodolfo percebeu algo por baixo da vestimenta da filha, algo que tinha uma forma retangular muito semelhante a um livro de bolso. Horrorizado, ele saiu e foi fazer sua caminhada, não conseguia andar dois metros sem dizer seu estribilho: "Isso é um absurdo".

Dona Greta Garbo recebera esse nome por causa da famosa atriz de Hollywood. Naquela noite, como de hábito, estava na cama fazendo seu crochê terapêutico quando o marido saiu do banheiro enrolado com a toalha na cintura. Decidiu interrogá-lo com seu olhar intuitivo que nunca falhava e com gestos enérgicos e palavras que não mostravam indecisão:

– Está tudo bem, meu esposo? Você está diferente.

Rodolfo, com experiência após muitos anos de casado, sabia que mesmo calado estava errado, mas teve que responder, não tinha outra escolha:

– Está tudo bem, sim, minha Greta.

– Hum!

Ele se deitou na cama e, pelo olhar dela e tom da conversa, percebeu que a noite não seria agitada como quando eram jovens.

– Deve ser por causa da gravidez da nossa filha.

– Hum! Insensível, você nem acredita que nossa filha está grávida. Por acaso você anda me traindo?

– Não, minha Greta. Você está louca... isso é um absurdo.

– Hum! Vamos dormir.

A família retornou à consulta com o doutor Edgar no sétimo mês de "gravidez".

– Doutor, por que o senhor não me passou um ultrassom?

O doutor ficou num mato sem cachorro:

– Sua gravidez é especial, não será necessário um ultrassom. Vamos resolver isso agora, minha querida, só será preciso um raio X.

Mãe e filha acharam estranho, mas concordaram. O exame mostrou claramente o que havia por baixo da roupa da jovem: dois livros calhamaços. Isso explicava o formato retangular da grande barriga. As mulheres não estranharam nada, muito pelo contrário, estavam bastante satisfeitas. Foram e esperaram no carro enquanto Rodolfo conversava com o médico.

– Doutor, não estou aguentando mais essa loucura.

– Que tal o senhor sair em viagem com sua esposa para melhorar o clima entre vocês dois?

– Essa ideia não parece tão absurda, mas vamos para onde?

– Que tal a Serra das Viúvas? É um lugar bonito e aprazível.

– Acho que vai ser uma boa ideia, obrigado, doutor. Tchau e até a próxima.

Na volta para casa dessa vez, Rodolfo pediu que a esposa dirigisse o carro, pois não estava conseguindo se concentrar no trânsito.

– Mamãe, estou muito feliz, eu vou ter gêmeos.

– Eu também estou feliz, minha filha, meu trabalho agora vai ser dobrado.

Rodolfo, do banco do carona, só pensava se chegaria vivo em casa. O porta-malas do carro vinha lotado de linhas de crochê.

– Já escolhi os nomes, vão se chamar "Tomo Um" e "Tomo Dois".

Quando entraram em casa, Dinamite viu uma luz estranha em volta da família, fazendo com que soltasse um uivo medonho. Dona Greta se sentiu mal e quase desmaiou. Foi levada pelo marido até o sofá, enquanto a filha foi buscar um copo de água com açúcar. Respirando com dificuldade, a matriarca disse:

– Rodolfo, não devemos fazer essa viagem, isso é um sinal de mau agouro.

– Que bobagem absurda...

– Minha mãe sempre dizia que quando o cão da família uiva dentro de casa, é sinal de morte.

A filha voltou da cozinha com aquela barriga quadrada e o copo cheio nas mãos e entregou à mãe, que bebeu todo o conteúdo. O clima ficou pesado naquela residência por uma semana até que finalmente o patriarca convenceu a esposa a viajar, sempre dizendo que aquela coisa de clarividência era tudo uma bobagem.

Dona Greta sempre se vestia com muita elegância quando viajava com o marido. Estava na sala tentando convencer a filha a ir com eles.

– Tem certeza de que você não quer ir conosco, minha filha?

– Sim, eu vou ficar bem, mamãe. Vou ficar aqui com Dinamite e meus bebês. O que pode acontecer em uma semana? E ainda faltam dois meses de gravidez.

Dona Greta não se sentia bem devido ao mau pressentimento da semana anterior.

Rodolfo buzinou, chamando a esposa. A filha veio e deu um beijo no pai na janela do carro enquanto a mãe entrava no veículo.

– Rodolfo, se você olhar para alguma mulher nessa tal de Serra das Viúvas, perco de vez meu réu primário.

Ele ficou absurdamente calado dessa vez, engatou a primeira do carro e saiu se despedindo da filha.

Huna andava com dificuldade pela casa com sua estranha barriga. Sua mãe havia deixado tudo em ordem, como sempre. Dinamite dormia em sua casinha no quintal. De volta ao seu quarto, pela janela, observou que no horizonte uma tempestade se aproximava; trovões e relâmpagos estremeciam e rasgavam o firmamento na noite que chegava com suas sombras. Sentiu um pesado desconforto.

Dirigiu-se até sua estante e contemplou todos os seus livros. "Qual escolher? Frankenstein? Novamente? E por que não?"

Pensou em todos com carinho, os lidos e os não lidos, amava-os igualmente. Tornou-se possuída de um vago mal-estar, de uma ansiedade tal como sente quem está adormecendo. Escolheu seu favorito e se sentou confortavelmente em sua poltrona.

Adormeceu com Frankenstein sobre o colo. Só no sono, em seu mundo, algo como a Morte se reflectediu. Despertou em desespero, com todas as suas forças tentou reagir. Era a materialização da ideia abstrata que temos do tempo aquilo que sentia e, então, o caos tomou conta dos seus sentidos. Pareceu ter se erguido dentro dela o mais apurado sexto sentido, inteiramente perfeito. Algo oprimia seu ventre com a pressão de algum peso compacto, travou força com as trevas, dilacerante a dor veio...

Acordou assustada de madrugada, tremendo e suando frio. Uma chuva fina caía. O livro ainda estava em seu colo. Alisou o ventre, nada de anormal havia nele, levantou-se e caminhou pela casa na penumbra e foi até o quarto dos pais. Abriu a porta com delicadeza, sua mãe dormia um sono profundo, em cima do criado-mudo repousava o crochê. Dinamite roncava no quintal. Percebeu a luz da cozinha acesa e se dirigiu para lá. Encontrou seu pai em pé perto da geladeira, bebendo água.

– Pai, tive um pesadelo horrível...

– Eu também tive um sonho tão absurdo.

Os dois se abraçaram e, nos olhos dele, mais uma vez encontrou a segurança de sempre.

– Vem cá, minha filha... o mundo anda tão complicado... estou com sono, vamos dormir.

Telly Martins

Telly S.M. poeta e escritor underground das redes sociais.

Escrevo porque o universo não conspirou a favor.

Por último, mas não menos importante, poeta do canal Bruna e Livros no Youtube.

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