A Mulher que Pariu um Livro (uma composição sem filosofia)

Acho que isso é um ensaio se não for não tem a menor importância.

TÍTULO

A ideia do título surge durante em uma das lives do grupo de leitura da Bruna e Livros. As meninas começaram a conversar sobre o assunto de ter filhos; eu fiquei calado. Todos sabem que o homem que busca a verdadeira sabedoria deve ouvir as mulheres. Durante a discussão, a Bruna falou mais ou menos assim: "Ai, gente, eu não quero ter filhos, meus livros são meus filhos." Então eu pensei: "Olha lá a mulher que pariu um livro."

Mas não basta ter somente a ideia, tinha o medo de ser mal interpretado, coisa bastante comum nas redes sociais na atualidade. Eu pensava na história e ria; não tinha como não ser engraçado. Quanto mais eu pensava, a coisa piorava. Penso, logo me irrito. “Qual livro essa mulher vai parir: livro de bolso ou calhamaço?” Na dúvida, abandonei o projeto.

Em outra live, tempos depois, o assunto voltou à tona entre as mulheres. Então eu criei coragem e falei com a Bruna a ideia que eu havia tido. Ela levou na boa e exigiu que eu escrevesse. Ela só pediu que eu tomasse cuidado com as descrições, logo as descrições, meu ponto fraco. Fiquei sob pressão; tinha que escrever, mas não podia errar. De certa forma, isso se parece com pilotar uma motocicleta em uma rodovia; se você errar, você morre. Inclusive, foi a única coisa que ela me pediu que eu escrevesse depois desse tempo todo por aqui.

A preocupação quanto ao título vinha de uma conversa que tive com minha ex-cunhada; ela foi mãe depois dos quarenta anos. Em algum momento tive que perguntar. "Você vai parir em que mês?" Ela não gostou muito, disse que não era uma vaca para parir. O que é comum em alguns estados do país não é em outros. Expliquei a ela que aqui era comum falar assim; não sei se ela entendeu. Certamente, se eu tivesse passado toda minha vida na minha cidade de origem, o título seria "A Mulher que deu à luz a um livro". Ficaria mais bonito e aceitável.

Ao se fazer uma avaliação fria do título da obra, pode-se perceber que ele já seria suficiente para eu receber um processo, mas não foi o que aconteceu. Ainda foi dessa vez que entrei no time de Oscar Wilde, Baudelaire e Flaubert.

NARRADOR

A narrativa é feita em terceira pessoa, aquela que menos causa incômodo ao leitor. Minha amiga Gabriela Edwirges que conheci aqui no grupo, sempre diz que tenho uma narrativa parecida com a do escritor norte-americano Charles Bukowski. Como ele não é lido por muitos leitores, a chance de alguém me comparar com ele é bem pequena.

Três cenas não podiam faltar na narrativa: o momento da descoberta da "gravidez", o momento em que os bebês se mexem e a cena do parto (Telly não teve nenhum parto na história). Vocês dizem isso porque não foram vocês quem escreveram.

A família mora em uma casa que tem quintal; achei mais fácil que fosse assim. Nunca morei em apartamento e achei que isso poderia complicar. E também é uma maneira de me colocar na história de forma indireta; o fato de Rodolfo e Isaias (sim, esse Isaias é o Isaias Caminha que eu estava lendo no clube) serem funcionários públicos e o cachorro vira-lata caramelo, que era perseguidor de motoboys, são elementos que têm a ver com minha vida de certa forma.

A comédia é um subgênero do gênero dramático que tem como principal objetivo provocar o riso e divertir o público por meio do humor, da sátira e de situações cotidianas exageradas. Escrevi uma comédia autêntica; por isso A Divina Comédia de Dante se chamava comédia: uma história que começa mal e termina. O nome "Divina" é acrescentado ao título posteriormente por Boccaccio.

No terror, o meu texto é classificado como um "Terrir", o melhor exemplo é o filme "Todo Mundo em Pânico".

PERSONAGENS

A quantidade de personagens em um conto sempre se mostra um desafio; o número ideal seria de até no máximo três. Qualquer quantidade acima disso pode confundir o leitor, mas eu resolvi arriscar e, dessa vez, coloquei cinco.

A melhor opção seria que a protagonista fosse uma professora que mora sozinha em um apartamento; talvez assim a leitura fosse mais incomodativa, mas eu não conseguia escapar da ideia de que o conto seria uma caricatura da família da Bruna, e a característica mais marcante em uma caricatura é o exagero. O risco de soar ofensivo ao fazer isso era grande, mas eu decidi arriscar.

O médico é uma homenagem bem clara ao escritor Edgar Allan Poe, mas a inspiração vem mais ou menos do Dr. Simão Bacamarte de O Alienista, de Machado de Assis. Também fiz pesquisa a respeito da pseudociese e descobri que não poderia ser feita uma ultrassonografia, então só restava o raio X, procedimento que os médicos usam para provar à paciente que ela não está grávida. No caso do meu conto, o exame comprovou o estado de gestação.

Assim como acontece em Dom Quixote, o primeiro desafio é escolher o nome dos personagens. Rodolfo eu tirei de Rodolfo Valentino, galã de cinema; acho que tem tudo a ver com Rodiney. Greta tirei da atriz Greta Garbo, também muito famosa no cinema. Eu já sabia que Huna era um nome próprio; inclusive, ele aparece em um dos contos do Edgar Allan Poe, e Huna rima com Bruna. Eu tenho essa mania de rimar as palavras; a letra H no começo do nome é uma homenagem à minha mãe, dona Hozana

"Alguns maridos são apaixonados por suas esposas" Charles Bukowski.

Rodolfo, ser um funcionário público aposentado, acredito que foi a melhor opção; se fosse militar aposentado, a minha experiência na marinha poderia atrapalhar. O bordão dele não foi difícil de criar: "Isso é um absurdo." Rodiney e Bruna vivem repetindo isso como se fossem dois discos arranhados. “Deus está morto” mas o homem que considera a sua família como algo sagrado não necessita da filosofia de ninguém.

Dona Greta é aquela dona de casa clássica que vive para cuidar da família. Não sei se vocês perceberam, mas o crochê terapêutico dela não está funcionando de forma adequada. A cena em que ela está na cama fazendo crochê e esperando o marido sair do banho eu tirei das lembranças que tenho dos meus pais. Acredito que seja bem comum para uma dona de casa fazer isso no fim do dia.

Se eu explicar tudo, não tem graça. Alguém sabe dizer por que o cachorro da família se chama Dinamite?

Por último, mas não menos importante, Huna uma professora que não sai de casa há dois meses após sofrer um colapso em sala de aula por causa de seus alunos. E, nesse tempo, dedica sua vida à escrita e à leitura de seus livros que ela tanto ama.

De todas as ideias malucas que coloquei, a que mais gostei foi a das duas mulheres adoecerem ao mesmo tempo, fazendo com que eu criasse um novo termo para a medicina: "pseudoavó".

TEMA

Quando falei com Bruna a respeito do que eu queria escrever, eu já sabia que um dos temas do concurso de contos de terror e suspense que eu participo no site Recanto das Letras era "pesadelo". Então pensei: "isso se encaixa na história que quero escrever. Muitos aqui devem ter associado a citação do livro Frankenstein ao fato de a Bruna ser fã da obra, mas não podemos esquecer que a escritora Mary Shelley teve a ideia de escrever sua obra-prima após um pesadelo. Eu não tive a ideia quando estava dormindo; na verdade, a inspiração veio quando eu estava acordado até demais.

Acredito que não seja mais necessário eu demonstrar minha admiração pelo trabalho de Bruna e Rodiney com contos, palavras, versos, poemas ou poesias, ou seja lá o que for que eu ando fazendo aqui por mais de 1001 noites.

CURIOSIDADES

Escrevi e revisei o texto em uma semana. Estou dizendo isso antes que venha um filho da Beatriz (perceberam que Beatriz rima com meretriz, acho que Dante não sabia disso) venha dizer que não fui eu que escrevi.

A quantidade de leitoras excede a de leitores. Imagino que este conto tenha sido apreciado por aproximadamente 100 mulheres, e nenhuma delas me classificou como machista ou misógino. Que bom que nem todas pensam assim; se todas pensassem assim, certamente eu morreria virgem.

Não sei onde fica a "Serra das Viúvas", mas acredito que não seja um bom lugar para um homem casado passear com sua esposa.

Escrever em um mundo em que tudo deve ser explicado só comprova que hoje não tem lugar para ninguém escrever.

Fiquei feliz de Rodiney ter percebido que o final do conto era um trecho da música "O Mundo Anda Tão Complicado" da banda Legião Urbana. Afinal de contas, Legião Urbana é coisa de "velho".

Não ter uma técnica apurada na escrita me entristece. Penso que o escritor sempre quer proporcionar a melhor experiência aos seus leitores. Esperar algo muito sofisticado de um fã de Paulo Coelho não parece ser possível.

Publiquei o conto no concurso de contos de terror e suspense do Recanto das Letras; não venci e nem fiquei em último. No final, só resta a grande sabedoria de Quincas Borba, de Machado de Assis.

"Ao vencedor, as batatas.”

Telly Martins

Telly S.M. poeta e escritor underground das redes sociais.

Escrevo porque o universo não conspirou a favor.

Por último, mas não menos importante, poeta do canal Bruna e Livros no Youtube.

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