Eu e o Sol
Machado de Assis dizia que tudo que nossa memória infantil guardava, permanecia com a gente por toda vida. Vez ou outra lembranças nos escapam e nos levam de volta àqueles tempos infantis e juvenis. E ficamos aqui, “velhos”, com olhos pesados de lágrimas, a lembrar aqueles dias de amor, de saudade.
Tenho certeza que Clarice também teve essas visitas memoriais. Visitas de uma infância profunda das ruas do Recife, do Recife judaico da Boa Vista. Da praça Maciel Pinheiro. Eis as imagens profundas que acompanharam Clarice por toda sua vida, o Recife das primeiras décadas do século XX.
Uma dessas histórias de sua infância que mais me surpreendeu foi a sua verve literária já desde menininha. Bem, não estou surpreso com sua verve literária como algo inédito, pois a infância é terreno fértil para a fluídez artística. No entanto, há algo inédito nela, isto é, Clarice mesma é esse ineditismo. Quero dizer que Clarice já era Clarice desde sempre, desde o seu primeiro poema. Ela nasceu com a mesma necessidade e urgência de seu povo. Já existia nela uma percepção artística rara.
Clarice, acima de tudo, é uma inventora. Uma inventora artística e irreverente. Não segue modelos ou modismos. Escreve o que lhe vem, como a ser dominada por algum daimon socrático que vagabundeava pelas ruas do Recife.
Certa vez, disse a seu pai:
“Papai, inventei uma poesia.”
Seu pai perguntou-lhe:
“Como é o nome?”
Ela respondeu:
“Eu e o sol.”
E sem esperar muito, recitou:
“As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas, mas eu não vi”.
O pai, então, interpela:
“Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?”
Ela o olha… um segundo. Ele não entende… Então, ela emenda:
“O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas”.
O Diário de Pernambuco, jornal do Recife, tinha um espaço para a publicação dos escritos infantis. Não é supresa nenhuma os textos da menina Clarice nunca serem publicados, pois todos os textos infantis seguiam a mesma introdução: “Era uma vez…”; Clarice não segue, não repete, ela flui numa liberdade interna. Ela escreve o que sente, o que vê, o que inventa e “ninguém entende”.