Isaías Caminha conhecia o jogo do bicho
Quando eu era criança, meu avô paterno era dono de um bar. Lembro-me de ver frequentemente um homem que aparecia no caixa e perguntava se ele, meu pai, ou meu tio queriam jogar. Tratava-se do jogo do bicho. Se não me engano, eles sempre apostavam alguma coisa, e parece até que certa vez o vô ganhou um dinheiro bom. Recordo-me de meu pai me explicando a relação dos números com os bichos…, mas isso me dava uma má impressão. Afinal, esse jogo era ilegal. Quem garantia que não havia fraude? Quem que pagava o ganhador? De que forma? Qual a origem do dinheiro? E a polícia? (Eu tinha uns oito anos).
Certa vez, já mais velho, provavelmente no Ensino Médio, não havia mais o bar, meu avô já era falecido, lembro-me de comprar o Jornal da Tarde e ver na capa os números do sorteio do dia. O que me chamou a atenção. Uma coisa é todo mundo saber da existência do jogo. Outra, completamente diferente, é diariamente sair em um jornal com credibilidade o resultado. Juntamente a eles vinha um informe dizendo que esta era uma manifestação de protesto. A premissa era que todos, inclusive o Estado, sabiam da existência da loteria, mas nada era feito para que a lei fosse cumprida. Então, enquanto continuasse assim haveria a publicação.
Em Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto (LC de julho de 2026 do “Bruna e Livros, um clube de leitura”), obra publicada, pasmem, em 1909, há uma conversa entre o coronel Figueira, o senhor Laje da Silva e Isaías Caminha onde tratam deste assunto. Segundo Laje, o jogo do bicho era proibido, mas a polícia vivia com os bicheiros, logo…
É interessante perceber que este é um problema antigo no país e que persiste sem perspectiva de solução. Nos meus momentos de devaneio, eu sonho com o nosso país um dia se tornando uma Inglaterra, um país escandinavo, um Japão. Porém, é difícil chegar a isso sem um povo que se preocupe em melhorar a sua terra. Parece-me que o brasileiro ainda pensa apenas em si e não se importa com a sociedade da qual faz parte. Talvez ele esteja desiludido. Talvez tenha razão. No entanto, se um dia isso mudar, pode ser que dê para resolver os grandes problemas públicos, como a existência do jogo do bicho. Enquanto isso não acontece, resta-nos sobreviver em nossas ilhas, como a literatura, que pelo menos nos permite rir de nossos males.