Uma análise temperamental de “O Som e a Fúria”, de William Faulkner
Dizem que foi Hipócrates, na Grécia Antiga, o primeiro a tratar sobre a Teoria dos Quatro Temperamentos. Segundo ela, as pessoas possuem quatro fluidos vitais (humores), e o comportamento e a personalidade se dão a partir da exacerbação de um deles. Estes são a bile negra, a bile amarela, a fleuma e o sangue. Sendo os quatro temperamentos, em ordem: o melancólico, o colérico, o fleumático e o sanguíneo.
Aplicando esta teoria ao romance O som e a fúria, de William Faulkner (LC de junho de 2026, do “Bruna e Livros, um clube de leitura”), podemos considerar Caddy como portadora do temperamento sanguíneo. Ela é extrovertida, movida por estímulos sensoriais, afetuosa, altamente adaptável, mas também impulsiva e sem foco no futuro. Ela demonstra empatia e amor genuíno por Benjy e Quentin, e não mede as consequências de suas escolhas.
Quentin III, seu irmão, possui o temperamento melancólico. Ele é analítico, profundo, idealista, porém propenso à tristeza, à fixação no passado e à paralisia interna. Parece que ele carrega todo o peso do mundo, sendo o responsável pela manutenção da pureza da irmã e da dignidade da família. E isso se torna um grande problema quando ele não consegue obter sucesso naquilo que considerava sua missão. O que o leva ao suicídio.
Jason IV tem o temperamento colérico. É focado na ação, prático, ambicioso e determinado. No entanto, se torna cruel, vingativo, arrogante e impaciente. É um personagem que não rumina as coisas como faz seu irmão. Ele age, mas não se preocupa com o mal que pode causar. Caddy sofre sua vingança pela promessa de emprego não cumprida. D. Caroline é enganada e manipulada por ter dado mais ao filho mais velho. Quentin, a sobrinha, paga por não ser submissa.
E, Dona Caroline é a fleumática. É apática, indiferente, egoísta e completamente inerte. Dá-nos a impressão de que fica o tempo todo “doente” para não ter de lidar com a realidade e os problemas de sua família. Pode-se dizer que é a maior responsável pela degradação de sua família, pois se tivesse se portado como uma mãe normal teria corrigido a tempo os “defeitos” dos filhos, e isso evitaria grande parte dos males que vieram como consequência.
Apesar desta teoria não ser considerada científica, e sim filosófica, acho interessante aplicá-la a esta obra para tentar entender a complexidade dos personagens criados por Faulkner neste romance profundo. A impressão que a obra me passa é que o objetivo do autor foi criar uma família disfuncional como símbolo da decadência do Sul americano do fim do século XIX. E, para isso, se utilizou das fragilidades de cada temperamento para que cada personagem desse sua contribuição na história da decadência familiar dos Compson.