O Corvo em Cordel

Tudo isso me aconteceu

Certo dia. Que horas? Que horas?

Sofrendo por muito tempo

Algo por dentro me devora

Sonolento estava, na

Meia-noite que apavora.

Eu lendo velha doutrina

Eu exausto de fadiga

Eu... buscando entendimento.

Numa vida que castiga

Eu matutando, pensando

Lia muita lauda antiga.

Agora até a esperança

parece estar morta.

De que vale tudo isso?

Nada nesta vida me importa,

um som me chamou a atenção,

eu ouvi bater à porta.

Bateu a porta do meu quarto

um soar devagarinho.

Eu, antes de algo falar,

fiquei com certo medinho.

Certamente, é alguém que

bate à porta de mansinho.

E será isso, nada mais.

Bem me lembro! Bem me lembro!

Brasa sobre o chão refletia

negra sombra do seu membro.

A sua última agonia

naquele frio dezembro.

Ansioso o sol buscava.

Está dor esmagadora.

Tantos livros que estudava.

Tu nunca foras traidora.

Que saudades imortais.

Os anjos chamam Lenora.

Que ninguém chamará mais.

Rumor triste, vago, brando.

Algo de mal pressentia.

Das cortinas ia acordando.

Sofria dentro do peito.

Meu coração... disparando.

Com efeito, levantei,

é visita retardada

que bate a estas horas tais.

Por que chegou demorada?

Será só isso, nada mais,

a visita pede entrada.

Sorte? A alma ficou forte.

Diga. Senhor ou senhora?

Eu já estava descansando.

Desculpe tanta demora.

Eu já estava cochilando.

Muito esperou aí fora?

Batestes? Eu não fui logo

Atender-lhe prestemente.

Abro a porta, nada vejo.

Vejo que eu estou demente.

Eu, nada vejo aqui fora.

Disse: “acho a noite somente”.

Somente à noite, nada mais.

Eu olho, investigo a sombra.

Sonho o inacreditável.

Isto será efeito da lombra?

Silêncio amplo e calado.

A quietação me assombra.

Só tu, palavra única e amada

Lenora, um suspiro escasso

Desta minha boca sai.

Eu quero somente o teu abraço.

Só isso, apenas, nada mais.

Este eco fala no espaço.

Um som ouço, bem mais forte.

A alma fica incendiada.

Som? Deve ser na janela...

Viro e ouço outra pancada.

Alguém? Algo sussurrava

Sem temor, rastreei a soada.

Que caso misterioso.

Mais duas pancadas, tais...

Sem nenhuma explicação.

Quero de volta a paz

A este coração medroso.

Será vento? Nada mais.

Pasmo, que tumulto vejo.

Janela abro, de repente.

Corvo descortês entrou.

Sim! Digno de antigamente.

Esnobe? Tinha o aspecto

Nobre, muito inteligente!

Move o ar com negras asas

Voa acima dos portais

Trepa, no alto da porta.

Busto de Atena, pousais?

Penso! Intrigado fico.

Trepa! Fica! Nada mais.

Diante do corvo feio

Tive triste pensamento

A ave de postura rígida.

Eu sorri por um momento.

Disse: "Tu que vens da noite

Corvo, possui entendimento?"

Vejo, essa ave não é medrosa.

Tem nomes senhoriais?

Como te chamas tu, ave?

Onde estão seus ancestrais,

Corvo da noite sombria?

Ele disse: "Nunca mais".

Atônito, vi que o pássaro

Minha pergunta entendia.

Confuso com a resposta

Não entendo como fazia.

Vocês, homens, entenderão?

Isto na Terra existia?

Ave negra sem topete

Acima dos meus portais

Ficou friamente posta.

Por que no busto ficais?

Ouvi ela e disse resposta.

Nome dela? Nunca mais.

Este corvo solitário

Palavras escassas, disse.

De pouco vocabulário

Que sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu.

Tagarelou na mesmice.

Eu, no passado, perdi

Amigos nobres, leais.

Será? Perco este também

Nos desjejuns matinais.

Corvo, sem mexer as plumas,

Ele disse: "Nunca mais".

Tremo com esta resposta.

O corvo tem consciência.

É tão cabido! Tão exato!

Vejo que é toda a ciência,

Trazida do antigo mestre

Com quem tinha convivência.

Que destino castigado.

Que dos seus cantos usuais

Não haverá fadiga, pausa?

O amargo falar ficais.

Está sua última cantiga?

O estribilho, nunca mais.

Eu, pela segunda vez

Triste ideia tivera.

Sento na minha poltrona

Que, com esforço, trouxera.

Caço o corvo magro e rude.

Está lá a triste quimera.

Este segredo assombrado

Destas sílabas fatais

Não entendo a ave do medo.

Tens palavras infernais.

Não há sentido no grasnar.

Fala a frase: “Nunca mais”.

Ideando, meditando

Sonhando, a ave pensava.

Me via agora tranquilo,

Este corvo não falava!

Com a cabeça no encosto

Aquele olhar me abrasava.

As luzes sobre o encosto

Parecem celestiais.

Aqui antes sua cabeça

Com tranças angelicais

Outrora ali desparziam,

Agora não se esparzem mais.

Supus, o ar ficou mais denso.

O incenso era perceptível.

Serafins? No chão roçando?

Um turibulo invisível

Meneando pelo quarto.

Disse então: “um deus sensível”.

Que venha, manda repouso

A dor devora até demais.

Extinta seja Lenora.

Que saudades imortais.

Enlouqueço ou esqueço ela.

Disse o corvo: “nunca mais”.

Demônio que negrejas.

Profeta endemoniado?

Ave, vidente. Vens tu do inferno?

Será um náufrago escapado?

Morador no mal eterno,

Da chuva foste lançado?

Casa com horror profundo.

Duraram muitos temporais?

Tudo diga infernizado.

Aqui meu mal triunfais!

Há um bálsamo neste mundo?

Disse o corvo: "Nunca mais".

Você ou o que quer que sejas!

Vil profeta, escuta, atende!

Demônio, ave que negrejas!

Olha o céu que além se estende

Pelo Deus adorado, fala!

Não escuto, a alma não entende.

Estará no Éden celeste

Ou em retiros sepulcrais

A virgem que ela chora?

Anjos nos céus, muito orais

Ouça, eles chamam Lenora.

Disse o corvo: “nunca mais”.

Demônio, ave que negrejas

Não quero ter inimigo.

Levantei, clamei: CESSA!

Corvo, deixa-me comigo

Ave maldita. Profeta!

Fora do meu casto abrigo...

Não fique nenhuma pluma

Ou suas mentiras fatais.

Tira as garras do meu peito.

Dor crua! Não quero mais.

Ave, tu só me torturas.

Disse o corvo: “nunca mais”.

O corvo fica trepado

De maneira comedida,

Sobre este busto de Atena.

Rosto rijo, a luz caída.

O demônio! O lampião

Clareia a aborrecida.

Espraia essa triste sombra.

Aqui neste chão ficais,

A minha alma só chora.

Por que linhas funerais?

A minha dor não sai mais.

Nunca, nunca, nunca mais!

Telly Martins

Telly S.M. poeta e escritor underground das redes sociais.

Escrevo porque o universo não conspirou a favor.

Por último, mas não menos importante, poeta do canal Bruna e Livros no Youtube.

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