O Espírito está Nu!
Autor: Patricia Margaret
LENDO a RECHERCHE…1
"[...] sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento". (Proust, No caminho de Swann)
"O homem nasce livre, e por toda parte encontra-se acorrentado" (Rousseau, Do contrato social)
O espírito está nu! Sem suas vestimentas culturais, o espírito está perdido, imerso em vacuidade, um vazio sensível e suprassensível. O hábito é a base segura que flui o espírito. Por meio do hábito, o espírito nem precisa dos sentidos, pois o próprio hábito os reproduz. O hábito determina a vida do espírito.
O hábito constrói um mundo que limita o espírito. Nasce livre como o vento, soprando por onde deseja, mas esbarrando nas bordas do hábito como a domesticá-lo. Inicialmente, esse limite fronteiriço lhe dá a ideia de segurança, de pertencimento, de inclusão e importância. No entanto, o espírito incomodado é provocado a ver o que há para além do hábito.
O que Proust chamava de hábito, Platão chamava de caverna. Na caverna está cheio de espírito acorrentado pelo hábito. O problema é que o espírito esqueceu que é artista e se acostumou com a mesmice ilusória do hábito. Em outras palavras, o espírito esqueceu-se que é Homem. Esqueceu-se que é um tipo de demiurgo, pois criador. Tornando-se profundamente criatura, massa.
Contudo, nem tudo está perdido, nem tudo está acorrentado pelo hábito, pois somos atacados cotidianamente pelo estranhamento, pelo não padrão, pelo novo. E toda vez que isso acontece, nosso espírito se amedronta, julga ser alvo de demônios, de tiranias, de perseguições. O hábito é o ópio do espírito, diria um Karl Marx jovem. E o que mais encontramos em nossos dias são esses opiáceos que atendem a todos os gostos medrosos e ideológicos.
Sócrates desce em direção à cidade baixa, Marcel desce à profundidade de suas memórias, ambos em busca do Homem. Quais um Zaratustra moderno que acena para nós lá do outro lado da ponte, da ponte que liga o velho homem ao novo homem.
Eu atendo ao chamado de Sócrates, observo os movimentos da memória de Marcel e me arrisco na travessia da ponte nietzschiana; pois nunca fui mesmo de me habituar a nada. O hábito cansa meu espírito, repetir refrões ultrapassados e ineptos nunca me satisfez, gosto mesmo de conhecer coisas novas, demasiadamente novas.
Por isso evito cavernas e sempre mudo de lugar os móveis de meu quarto para não dar razão ao hábito e para que ele saiba que o único hábito que eu respeito é o hábito que eu tenho de ignorar hábitos.
Meu espírito está nu e estou bem, Mantenho-me livre das bordas parvas do Estado, das ideologias políticas, das utopias de paraísos celestes e terrestres, das morais dos que se entendem representantes do bem, esses hábitos parvos que mantêm os espíritos acorrentados à moda.
Meu espírito está nu, eu sozinho num quarto estranho que me incomoda e me provoca a reconstruí-lo todos os dias.
Continua…