…deus está morto, mas Eu estou vivo!
Viajante acima do Mar de Névoa, Caspar David Friedrich, 1818
Recentemente, respondendo a uma apoiadora muito querida sobre sugestões de leitura, ㅡ aqui a leitura se referia a sugestão de textos antagonistasㅡ, fiz questão de oferecer uma sugestão muito mais de método do que orientá-la a livros e autores específicos.
A maioria das pessoas opta pela indicação de livros e autores que elas apreciam. Isso por que a maioria das pessoas ignora a experiência da descoberta do conhecimento, experiência individual, e desejam ardentemente de que todos expressem a sua mesma crença.
Recentemente, na aula do professor Andrei Venturini, comentei que Nietzsche, ao matar deus, criou um vazio no coração do homem. Ora, deus está morto, e agora? Quem ocupará seu lugar? Obviamente, Nietzsche estava dizendo que o homem mesmo deveria ocupar esse lugar de honra. O homem, deus de si mesmo. O homem, criador de si mesmo e do mundo. No entanto, o vazio deixado por deus na maioria das vezes é ocupado por outros “deuses”. Ora, a casa está vazia, o dono está morto, toda a malta pode invadi-la.
Se perguntarmos a uma pessoa religiosa o que ler, o que fazer para conhecermos mais sobre a vida; ela, obviamente, dirá para que leiamos o seu livro sagrado, seus autores sagrados, imitar seus santos, etc.
Se pudéssemos fazer a mesma pergunta a Nietzsche, ele diria que nós precisávamos atravessar a ponte, sozinhos, e lá do outro lado encontrar-se com o novo-nós. O novo-nós que superou a condição do velho-nós. A ponte de Zaratustra é a mesma caverna de Platão.
Contudo, a maioria das pessoas não tem coragem de atravessar a ponte sozinhas, mesmo sabendo que deus está morto. Elas não têm coragem de sair da caverna sozinhas e preferem se iludir com as sombras.
Platão e Nietzsche estavam apontando para um futuro que ainda não existia e precisava ser construído pelas novas gerações por meio de novas filosofias. O velho homem precisa se tornar o novo homem e produzir novidades.
Por isso, ao responder a apoiadora querida quis proporcionar-lhe uma possibilidade de novidade e não aquilo que faz parte de minha crença. Só ela poderia encontrar os livros e autores que ela buscava para confrontar ideias antagônicas e assim poder fazer a sua síntese. Eu poderia ter optado pelo caminho mais fácil, ou seja, pelo caminho de minhas crenças e ter sugerido autores que eu me identifico ideologicamente, mas se assim o fizesse não estaria preocupado com a minha apoiadora querida, mas estaria preocupado em fazer proselitismo. E na maioria das vezes, fazer proselitismo é escravizar, acorrentar pessoas em ideias velhas e ineptas.
Enfim, como dizia Heráclito, “tudo escorre”, tudo é movimento, cuidado com os fazedores de prosélitos de filosofias ineptas e crenças ultrapassadas. Lá adiante está a ponte e só você, sozinha, poderá atravessá-la. Venha, estou já do outro lado, porque daqui se caminha “lado a lado” e “sozinho", da maneira de Heráclito.