O que sonho enquanto durmo
O chapéu branco com o símbolo bordado em vermelho no centro era sempre a primeira coisa que eu via quando acordava na minha atual cama. Aquele símbolo me perseguia por anos! Incontáveis anos! Na verdade, posso até mesmo dizer quantos, sim, são vinte e cinco anos, desde que recebi o maldito diagnóstico médico que agora me destruía aos poucos. Comecei a ver o símbolo vermelho com meus cinquenta anos, quando o primeiro doutor disse que eu poderia ter que retornar mais vezes por ele não ter tido como identificar com total certeza o que era aquela doença que eu estava desenvolvendo. Precisaria de mais testes, exames e agulhas pontudas. Como eu odeio elas! E por vários e vários meses eu estive vivendo aquela crise, e sempre estava vendo aquele símbolo vermelho em seu peito, às vezes no seu uniforme, às vezes no cordão que carregava em seu pescoço, mas de alguma forma, eu sempre acabava vendo aquele símbolo.
Era óbvio o que estava me destruindo, sim, muito óbvio, era a vida.
O problema é que não existia um médico no mundo que pudesse diagnosticar o que estava causando tudo aquilo: todos os meus pesares, todas as minhas dores e angústias, todo o calor infernal que eu sentia em meu peito ao estar ao lado de tantas pessoas e todo o frio solitário e absoluto que eu sentia ao me ver dentro de uma redoma vazia, onde todos eram tão vazios e transparentes quanto um espelho. Era a vida, a dificuldade de estar ali e não conseguir gritar para o mundo o quanto eu sentia falta de sonhar, de dançar e viver, pois afinal, como era possível sentir falta de algo que sequer tive em meus melhores dias? E lá estava ele de novo, o símbolo vermelho, dia após dia, semana atrás da outra, e logo se tornaram meses, que então viraram anos, e só então eu compreendi o que faltava.
Uma vez, uma vida inteira atrás, a minha querida avó me revelou a sua fé. Eu era um moleque, baixinho e estranho, louco por insetos e por tudo de bizarro que o destino jogava na minha frente, e ela já era tudo que todo garoto deveria ter na vida: sorridente, forte, engraçada, esquecida, protetora, lutadora, presente. Sim, ela era presente demais, mas costumava me deixar sozinho durante horas aos domingos, principalmente pelas manhãs. Um dia então, aos meus cinco ou oito anos, nunca mais me lembrarei ao certo, ela disse que me levaria para conhecer alguém. Foi a primeira vez que entrei em uma igreja, foi a primeira vez que vi aquele símbolo. Mas curiosamente, ainda não era ele em toda sua glória. A cruz era marrom, grande, extremamente bem destacada dentro do santuário de fé que minha avó tanto adorava. Era ali que ela ficava, era ali que tinha algum tempo para si e para a sua fé, a qual fui apresentado por ela ao fazer-me ajoelhar e ler algumas páginas inteiras daquele grande livro que estava com ela a todo momento.
Com o tempo entendi (ou pelo menos pensei entender) quem eram aqueles presentes no grande livro, quem era aquele que minha avó queria me apresentar, e passei dias então com a dúvida cruel batendo, sobre por qual razão minha avó não possuía nenhuma cruz em casa.
Mas eu não estive sempre com Deus.
Na verdade, não é nenhum exagero quando digo que a vida era o que estava me matando, não mesmo. Minha avó me deixou pouco depois dos nove ou doze anos, não me lembrarei ao certo, e passei a tentar viver com um irmão distante, indo para a escola, fazendo amigos. Pelo menos era o que eu imaginava e o que queria de coração, mas eles não queriam de verdade ser os meus amigos, tampouco meu irmão queria ser meu irmão. Logo cresci, amargurado, solitário, sozinho pelo mundo, completando os meus dezoito anos e correndo o mais rápido que pude para fora de casa, antes de ser jogado para fora pelo meu próprio sangue.
Deus provavelmente tinha me deixado quando minha avó se foi, e apenas dela eu sentia falta.
Vieram então as primeiras dores, agudas e pesadas, já aos meus vinte e poucos… ou seriam trinta e poucos? Juro que não lembro. Eu me lembro muito das dores, eram tão agudas e determinadas que me faziam chorar, sufocar, rir e contemplar vários e vários vazios por horas a fio, sentado em minha cama, a primeira delas. Nessa idade, o símbolo surgiu então em poucos momentos, agora trazendo um tom amarelado, por algum motivo. Eu o vi primeiro em uma porta de uma família que morava vizinha à padaria onde eu comprava meus pães. Foi só uma vez, uma única vez, logo quando percebi que a dona da casa também parecia doente.
Eu não sei como identifico os doentes, só identifico.
E então eles se mudaram. O marido levou os dois filhos que tinham embora pouco tempo depois que reparei naquele símbolo, pois a esposa havia deixado este mundo, como o próprio padeiro me contou. Senti lágrimas, senti dor, senti o peito querer estourar em mil pedaços, e senti dúvidas a respeito. Era uma estranha, o que eu tinha com ela? A morte é comum, acontece sempre, logo eu também iria conhecê-la. Na segunda vez que eu vi o símbolo, eu estava deitado em minha cama depois de um dia bastante difícil no trabalho, onde nenhum daqueles jovens me escutava. Minha profissão? Não lembro mais. Foi há muitos anos. O símbolo apareceu lá, em meus pensamentos íntimos, pairando no ar, como se estivesse me encarando e procurando por mim em um imenso labirinto de sons, de memórias, de dores e pesadelos. Lá estava, uma cruz amarela e grande, pesada demais para os meus olhos aguentarem, acordei.
Estava então com cinquenta anos completos, disso eu me lembro.
O olhar corria pela sala fria e branca, sentia meu sangue ferver e meus braços tremerem, enquanto o doutor me encarava e contava sobre o que poderia ter causado tantos anos de agonia recorrente. Durante sua fala, meus olhos mais uma vez correram pelo local, analisando e anotando cada detalhe, até que parei em seu uniforme. O símbolo, lá estava ele, bordado no bolso do jaleco em uma cor viva, muito viva, um vermelho forte como o sangue que jorra de um pulso cortado, de um coração esmagado.
O médico sabia o que me matava, apenas não queria dizer em voz alta. Era Deus? Sim… não… quem sabe? O que eu sabia era que era a vida, a solidão em carne e osso, que se fez minha companheira mais fiel e amante mais carinhosa. Para o médico era difícil dizer o que me afligia, então levantei-me e agradeci, fui embora. Já fazem vinte e cinco anos, estou velho agora, não tanto quanto gostaria de estar, mas sei que não terei tanto tempo assim pela frente, embora até tenha tido muito mais do que a maioria das pessoas na mesma situação. Decidi então me internar, esperar a vida terminar de se divertir, o destino parar de brincar, a canção ser escrita e meu tempo escorrer pelos meus dedos como areia em uma praia longínqua.
Aí vem ela, a enfermeira que me olha com ternura desde que aluguei meu quarto neste hotel moribundo, com seu chapéu branco e sua cruz vermelha evidente. Por tantas vezes vendo este mesmo símbolo, sempre mudando de cor e sempre representado de alguma forma diferente aos meus olhos, eu resolvi pedir um pequeno favor para a moça. Era simples: “Traga-me Deus, quero falar com ele”. Cheguei a me divertir no início, vendo o rosto coberto de ternura e cuidado mostrando uma bela expressão de desentendimento, de confusão. “É uma Bíblia que o senhor deseja?” dizia ela, e eu apenas sorria. Uma dia, a porta do quarto abriu e ela entrou, segurando um livro que também possuía aquele mesmo símbolo que tanto me acompanhou durante a minha jornada, que agora mesmo já não me lembro tanto. “Eu lhe trouxe Deus hoje” disse a jovem, sorrindo para o velho chato e frágil de quem ela cuidava todos os dias. Lembrei-me da minha querida avó, única parente que tive em vida realmente presente na minha jornada. O sonhar era o único lugar onde a encontrei durante os anos que se passaram desde que me deixou, então era para lá que eu deveria seguir assim que possível.
Agora fecho meus olhos.
Tenho quinze anos de novo, exatamente quinze anos. Estou indo cantar em um palco, tem uma multidão me aguardando. Colegas? Amigos? Sim, é minha escola, e eles estão querendo ouvir minha voz. Eu canto, eu danço, eles se divertem e aplaudem com louvor, com carinho. Nunca soube cantar e nunca tive talentos ocultos, mas sonhar é algo tão poderoso que posso ser o que eu bem entender. Cá estou, com meus vinte anos, sim, perfeitos vinte anos, beijando a garota mais linda que já vi na vida, com um sorriso misterioso e um olhar sonhador, que me permite viajar através do universo inteiro a cada toque. É minha esposa agora, mãe de todos os meus filhos e eterna dona do meu coração, me vendo ainda cantar para o mundo e sendo minha companheira fiel e sempre presente.
Não vejo o símbolo que me acompanhou durante toda a vida, mas sinto o seu peso e o seu calor e minhas mãos, sinto seu poder me acompanhando durante cada sonho lindo, cada situação não vivida em minha jornada, cada pessoa que eu queria abraçar, cada convite para sair que não foi feito, cada beijo não dado, cada ente querido desaparecido, sinto o peso da cruz vermelha em meus braços fazendo todos os meus sonhos serem reais neste momento, tudo isso junto e ao mesmo tempo, explodindo em minha mente, tudo isso enquanto durmo.
“Essas foram as últimas palavras do senhor Estel, logo antes de sorrir e apertar o presente que lhe dei, e então dormir, com um último suspiro. Nem sempre consegui entender tudo o que ele dizia, às vezes ele mesmo não sabia mais e pedia desculpas por isso, mas eu nunca me incomodei, era como ter um amigo. Ele parecia feliz, aliviado no fim. Morreu segurando a Bíblia.” - Relatório da Enfermeira Nádia, 06:00, primeiro dia de Agosto.