Transparência

A plenitude da nossa consciência nos é impossível, pois ela não depende de nós e sequer de si mesma; quem sabe uma criança a deixe escorrer por entre seus dedinhos curiosos e inábeis como areia, enquanto sorri de tudo para o nada. Já os cacos da vida, tudo aquilo que tentamos pôr numa ordem minimamente desejável, continuam cortantes como sempre, movendo-se em direções e ritmos desconhecidos. Neste labirinto em erupção repleto de pontos cegos e intraduzíveis, estamos nós, adultos, cheios de si e crentes na existência de uma consciência que, ao final de tudo, nos levará para onde gostaríamos de estar. Mas esta consciência nos deixará aqui sofrendo ao tentar decifrá-la, chorando ao dizer ‘a culpa é minha’; vivendo para podermos rezar por um segundo - que tanto vale e tão pouco tem a dizer -, e vislumbrarmos sua efemeridade. Ela é a força que arranca nossas lágrimas do mais profundo desesperado eu, e que as transforma em soluços pétreos que não podem ser digeridos e, no entanto, são compulsoriamente engolidos; um choro mudo e cortante derramado dentro e sobre nós mesmos. Parece que nunca seremos inteiros o suficiente para afirmar com alguma precisão que somos tudo o quanto gostaríamos de ser. Talvez sejamos uma piscada de luz diáfana que dignifica uma lágrima da sua vida obscura, rumo ao contorno abissal da face timidamente impregnada de um sorriso.

Domício Andrade

Um homem sujeito a tudo o que a vida pode oferecer, ou do que dela ele seja capaz de extrair; esta última ação traduz grande parte dos meus insucessos. Sou extremamente injusto enquanto procuro certas circunstâncias para sorrir. Mas também não sou um exímio buscador das coisas da vida, e, ao dizê-lo, não atenua minha culpa. Esta é a minha vida, afinal; tentar nomear meu próprio tempo e procurar em suas letras misteriosas o que ainda não consigo ler, e que talvez, nunca saberei escrever.

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A Madame