Transparência
A plenitude da nossa consciência nos é impossível, pois ela não depende de nós e sequer de si mesma; quem sabe uma criança a deixe escorrer por entre seus dedinhos curiosos e inábeis como areia, enquanto sorri de tudo para o nada. Já os cacos da vida, tudo aquilo que tentamos pôr numa ordem minimamente desejável, continuam cortantes como sempre, movendo-se em direções e ritmos desconhecidos. Neste labirinto em erupção repleto de pontos cegos e intraduzíveis, estamos nós, adultos, cheios de si e crentes na existência de uma consciência que, ao final de tudo, nos levará para onde gostaríamos de estar. Mas esta consciência nos deixará aqui sofrendo ao tentar decifrá-la, chorando ao dizer ‘a culpa é minha’; vivendo para podermos rezar por um segundo - que tanto vale e tão pouco tem a dizer -, e vislumbrarmos sua efemeridade. Ela é a força que arranca nossas lágrimas do mais profundo desesperado eu, e que as transforma em soluços pétreos que não podem ser digeridos e, no entanto, são compulsoriamente engolidos; um choro mudo e cortante derramado dentro e sobre nós mesmos. Parece que nunca seremos inteiros o suficiente para afirmar com alguma precisão que somos tudo o quanto gostaríamos de ser. Talvez sejamos uma piscada de luz diáfana que dignifica uma lágrima da sua vida obscura, rumo ao contorno abissal da face timidamente impregnada de um sorriso.