Uma bala para um amigo

Há muito tempo atrás existia um jovem e sua bala obscura. Um instrumento ceifador, rico em minérios da morte, com dimensões perfeitamente equilibradas para retirar aquilo que nos torna tão únicos em relação ao restante dos seres vivos, os nossos sonhos.

O odor da pólvora e do sangue fresco se misturando na dança invisível da morte ao ar livre se mistura ao vento gélido da madrugada onde encontrei um velho amigo. Seu nome era S, simplesmente S. Nos conhecemos muito tempo atrás, logo quando dei os meus primeiros gritos neste belo mundo, saindo do ventre de minha mãe. S estava lá, logo ao lado dos médicos, e sua irmã também estava presente na sala, um pouco mais distante e sorridente.

Eu chorei e chorei, berrei por vários minutos. O mundo me causava algum tipo de dor, de desespero e destruição, e meus choros eram ouvidos por toda ala médica, despertando outras crianças que por lá estavam. Minha mãe, exausta, começava a pensar nos vários motivos para minhas primeiras lágrimas, imaginando que nasci com algum tipo de doença.

Bom, ela não estava errada.

Conforme meu tempo neste mundo foi passando, o senhor S passou a estar muito presente nos meus dias, onde quer que fosse. Sua irmã passou a nos acompanhar durante minha juventude, onde descobri que se chamava M. A grandiosa e bela M me deu conselhos lindos sobre como deveria seguir minha vida, como deveria enxergar a beleza das ruas e dos prédios, dos carros e aviões, das comidas e bebidas oferecidas pelo universo, mas foi S quem me ensinou a ver uma beleza única e especial em cada um dos seres humanos que se apresentaram no meu tempo neste mundo. Conheci minha bela Bely, com quem passei a maior parte dos meus dias desde o nosso casamento muitos anos atrás. Conheci Tom, o pequeno Tom, que veio ao mundo no meu aniversário, se tornando meu primeiro sobrinho e aquele quem deveria herdar tudo que já tive na vida, já que nunca pude ter filhos com minha querida Bely. Conheci Nara, Frida e Pedro, irmãos caçulas de Tom. S me ensinou a ler quando jovem, e isto repassei para meus lindos sobrinhos.

E eu vivi e vivi, e sobrevivi por muitos anos a fio, sem lembrar dos motivos pelos quais vim ao mundo em prantos.

Meu aniversário chegou mais uma vez, eram meus 76 anos de vida, ainda aguentando firme nas rédeas que seguravam o peso de ter tanta alegria em minha vida. S e M ainda estavam por perto, principalmente meu querido S, o grande amigo de minha existência. Era tudo tão puro, tão belo, tantas vozes e tantas risadas explodindo em melodias harmoniosas e infinitas no meu cérebro.

Então chegou meu presente.

Alguém bateu na porta naquela noite, logo durante uma breve degustação de vinhos entre S e eu. Ali encontrei D, um irmão distante de S, trazendo consigo o pequeno Tom, agora não tão pequeno assim, mas ao mesmo tempo muito pequeno naquele caixão dentro do carro que o levava.

“Tom? O que houve?”.

“Tom?”

“Se foi”, ouvi S dizer, “Se foi com D e com M”.

Não entendi o que estava acontecendo, apenas senti o golpe fatal daquela mesma dor de quando vim para este mundo. Meu peito rachou-se em mil pedaços, senti o gosto do meu próprio sangue inundar minha garganta, senti meu coração espalhando-se como um balão cheio d’água ao atingir violentamente o chão, senti minhas pernas cedendo ao peso morto que estava buscando sustentar há muitos anos, senti meu amigo S sustentar-me mais uma vez enquanto aquele odor de pólvora se espalhava, misturando-se com meu próprio sangue dentro de minha cabeça.

“É a hora”, dizia S, me levando ao lado de D para perto de meu pequeno Tom, onde agora conseguia ver M ao volante de sua carruagem sombria, “hora de acordar”.

Meu lindo e sempre presente Sonho de vida desmanchou-se diante dos meus olhos, na medida em que meu Desespero aumentava e rugia dentro do meu crânio. Senti uma última pontada daquela estranha bala no meu coração, terminando de vez de arrancar-me daquele magnífico sonho feito pela Morte, presente desde o meu nascimento, motorista de minha carruagem fúnebre. A destruição veio, o mundo em que eu estava caiu completamente, o próprio céu parecia explodir enquanto meu corpo inteiro agonizava com a demora do último suspiro. Dentro do carro estava Tom, morto, acompanhado do meu delíŕio final, do meu desejo de que nada daquilo acabasse, do desespero e da morte, apenas meu Sonho seguia tocando-me, quase como um adeus.

“Hora de acordar, amigo”.

E então acordei, estava morto. Uma camisa estranha segurava meus braços para trás, de modo com que os médicos não precisavam se preocupar com meus berros de surtos ocasionais. O Sonho acabou, quero berrar de novo…

Vinícius

Me chamo Vinícius, mas podem me chamar de Viny! Sou um jovem muito apaixonado pela literatura e pela língua inglesa. Gosto de clássicos, fantasias, suspenses e romances, um pouquinho de cada coisa. Sou graduado em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa).

Instragram: @sussurros.da.biblioteca

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