Drive My Car

Crepúsculo. Dou me conta que estou vivendo a vida pela metade enquanto dirijo meu carro. Sozinha. Estou sozinha. Por quê? Tenho vontade de gritar. Logo há de escurecer. Ouço Ride no rádio. Mas depressa desligo, caindo no silêncio desolador. O vento sopra com ferocidade pelo acostamento, deslocado pela força motriz das milhares de conduções que, assim como o meu carro, vagueiam pela estrada, apressados. Shhhs! A dúvida traga a minha mente: O que buscam com toda essa pressa? O que procuram tão vorazmente? São tantas as possibilidades: um pai indo ver o filho; um filho indo ver a namorada; uma namorada indo ver o pai. Minha cabeça começa a doer quando penso nisso mais do que devo... Passo para a terceira marcha. O motor ronca. Vruuuum! Um bando de andorinhas salpica o céu multicolor como pontinhos negros e trépidos, deslocando-se num amontoado uniforme. A estrada é íngreme e as curvas são fechadas. Inesperadamente, sinto medo. Já fiz isso milhões de vezes, mas, mesmo assim, sinto medo. Por quê? Por que me sinto tão insegura com esse caminho que, em teoria, depois de tê-lo transposto infinitas vezes, já deveria me ser familiar? Às vezes penso que tenho medo do que possa vir a ser diferente: do novo, fora da minha zona de conforto; mas agora vejo que o meu verdadeiro medo é a monotonia. Apavoro-me em pensar em dias repetitivos e enfadonhos. Odeio a burocracia, o politicamente correto, a etiqueta. As pessoas me parecem supérfluas, extenuadas, exasperadas. Elas já estão vivendo no automático, no entanto não percebem; pensam: “Amanhã há de ser diferente, amanhã há de ser melhor”. Mas não irá. O amanhã será tão monótono o quanto o hoje. O depois-de-amanhã também. E quem sabe até a próxima-semana-depois-de-amanhã, o próximo-mês-depois-de-amanhã, o próximo-anodepois-de-amanhã e, por fim, a próxima-vida-depois-de-amanhã. Elas parecem não terem noção de que podem mudar seus caminhos fastiosos agora mesmo, sem terem que esperar por uma intervenção divina que provavelmente nunca virá. Ou, talvez, não: muitos até devem saber de suas sinas, porém preferem continuar com a monotonia; pois, assim como eu, eles têm medo do novo. Hipocrisia. Queremos o prêmio máximo, mas não queremos apostar o mínimo. Medo. Por que o tenho?... Lá se vem um caminhão. Brôoooim! Que grandes e robustos são os caminhões! Tão imponentes e autossuficientes. Eles não parecem sentirem medo. Isso é óbvio, visto que são apenas matéria inanimada: ferro, plástico, cobre, vidro.... Não são de carne e osso como eu. Mesmo assim, há algo, lá no fundo, de humano dentro deles. Os admiro. É esquisito, admito... Fuuuh! Dou seta para esquerda... agora para direita... esquerda de novo. São muitos os desvios que encontro no caminho, várias curvas, atalhos, bifurcações. Qual deles é o certo? Qual o errado? Existem caminhos errados, ou apenas destinos diferentes? Estou na direção do meu destino ideal? A vida é estranha... Já não vejo mais o crepúsculo. Todo o panorama é diferente. DISTINTO. As estrelas aparecem, tímidas. Os faróis se acendem. Amarelos intensos. Há uma carcaça de cachorro atropelado. Coitadinho!... Abro o porta-luvas. Há muitas coisas lá dentro: maquiagem, hidratante, óculos etc. Mas não encontro o que fui buscar lá... que foi...? Não sei! Não faço a menor ideia do que procuro... Estou progredindo?... Regredindo?... Também não sei. Contudo, enquanto não encontro respostas para essas questões que agridem meu íntimo, contínuo dirigindo meu carro...

Carlos André

Karlo Zandre - uma espécie de pseudo pseudônimo - é a forma com o qual eu assino. Curso Letras: Português e Inglês. Gosto de gatos, Rock e, obviamente, Literatura. Recentemente publiquei o meu primeiro romance "O Peste", conquistando o segundo lugar do Prêmio Palavra Solar, realizado pela Editora Sol Literário e o Ministério da Educação e Cultura do Ceará.

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