A Dança do Devir
Escreve Nietzsche em Aurora:
“É um juízo correto, por parte dos eruditos, que em todos os tempos os homens acreditaram saber o que é bom e mau, louvável e censurável. Mas é um preconceito dos eruditos achar que agora sabemos mais do que em qualquer tempo” [Grifos do autor] (Livro I, 2).
Esse aforismo nietzschiano espelha bem nossos dias, como tudo em sua filosofia. Nossos dias de certezas plenas e de policiamento moral exacerbado.
Nietzsche destaca em seu aforismo, o saber. No entanto, esse saber é crença e não conhecimento. É certeza e, principalmente, preconceito. E aqui o preconceito está intimamente associado à idiotice. À idiotice da ideia de um sentido extremamente piegas sobre o futuro, o progresso. Aqui, os eruditos são dignos de pena, são risíveis.
Nietzsche entendia a existência como um devir nos moldes heraclitianos. Tudo é um vir a ser. No entanto, esse “vir a ser” não implica em vir a ser melhor ou pior, mas totalmente isento de qualquer tipo de garantia moral. O que é pior? O que é melhor?
Nietzsche ironiza o erudito de seus dias, achando que agora sabem mais do que aqueles homens do passado. E isso como produto de preconceito e não de confirmação factual. Poderia questionar: Sabemos mais do que Platão? Sabemos mais do que Montaigne? Sabemos mais do que Sêneca? Não, não sabemos.
Nossos dias são dias reacionários, inda mais quando os comparamos com a Grécia Arcaica de Homero. Nossa pureza e policiamento moral beiram o mais chucro medievalismo. E tudo isso também é produto de preconceito, preconceito de uma consciência que se entende que sabe mais agora do que gerações passadas. Consciência que se entende melhor, mais ilustrada. O mesmo preconceito que Nietzsche acusava os eruditos de seus dias.
Vivemos uma época em que todos são “eruditos”. Como disse certa vez um colunista de jornal: os “tudólogos”. Sabem tudo e todos devem se dobrar ao seu saber. Preconceito de preconceitos, tudo é preconceito; diria hoje um Qohélet do século 21.
Contudo, as letras nietzschianas permanecem como sinalizações dessa idiotice que tenta se passar por erudição: tudo é um vir a ser e tudo que você sabe hoje amanhã não será mais. As suas certezas são momentos e devem ser abandonadas o mais rápido possível para você não ser presa eterna da idiotia. É preciso estar em movimento, não um movimento linear, mas circular, em que passado e presente se encontram a todo momento, como a bailarem juntos em busca de novas canções, de novas danças, de novos mundos… bailemos, amigos!