Madame de Staël: A mulher que enfrentou Napoleão

Germaine Necker, mundialmente conhecida como Madame de Staël (1766–1817), foi uma das maiores intelectuais e polímatas francesas que já pisaram nesta terra. É frustrante notar como poucos hoje comentam sua vasta produção sobre filosofia, literatura, tradução e a própria natureza humana. Mas foi na política que ela brilhou e incomodou. Em seus textos, ela "descia a lenha" no governo de Napoleão Bonaparte, tornando-se oficialmente sua inimiga intelectual nº 1.

Madame de Staël foi exilada de Paris em 1803 por Napoleão Bonaparte porque seus textos o ofendiam.

Aos 11 anos, Germaine já frequentava os salões intelectuais de sua mãe, Suzanne Curchod, que impunha à filha uma disciplina de estudos exaustiva. Enquanto outras crianças brincavam, ela lia e discutia Voltaire e Rousseau, além de dominar diversos idiomas. Se da mãe veio o lado acadêmico, de seu pai, Jacques Necker — influente ministro das finanças de Luís XVI —, veio o ar político que a transformaria em uma das vozes mais perigosas para Napoleão.

Quanto aos interesses amorosos, Madame de Staël buscava mentes que estivessem à sua altura. Aos vinte anos, casou-se por conveniência com o Barão de Staël-Holstein, embaixador da Suécia na França. No entanto, sua união mais icônica foi com o escritor Benjamin Constant. O relacionamento, que durou quase quinze anos, nunca foi formalizado, mas a aliança entre eles era uma paixão pelas letras e pela liberdade. Juntos, eles transformaram o intelecto em arma, formando um dos mais importantes grupos de resistência contra o autoritarismo de Napoleão Bonaparte. 

Em 1803, Madame de Staël partiu para a Alemanha, onde mergulhou profundamente na língua e na literatura germânicas. Essa imersão deu origem à sua grande obra-prima, Da Alemanha, editado no Brasil pela Editora UNESP. A intenção era publicá-la na França em 1810, mas Napoleão, temendo o impacto das ideias dela, confiscou e destruiu mais de 10 mil exemplares. O Imperador considerava a obra 'antipatriótica' por não exaltar a cultura francesa. Essa perseguição, não era surpresa para os textos que levassem a assinatura de Staël. Somente em 1813, ela conseguiu publicar a obra em Londres, onde o lançamento oficial tornou-se um sucesso absoluto e mudou o curso do Romantismo europeu.

“O romance realiza,

por assim dizer, a transição entre a vida real e a imaginária. A história de cada um é, com algumas poucas modificações, um romance bastante semelhante aos que são impressos, e nesse sentido as lembranças pessoais com frequência fazem as vezes de invenção.”

A “mãe” do Romantismo europeu, sem dúvida alguma, foi Madame de Staël. Em seu obra “Da Alemanha”, ela desenvolve a nova noção a respeito do romance na literatura. Acredito que sem os pilares que ela estuda sobre: o entusiasmo, a melancolia e as raízes da natureza, muitos dos autores românticos não chegariam onde chegaram. Até então, a literatura europeia era Neoclassicista, focada na razão, na imitação da Antiguidade e em regras rigorosas. Madame de Staël rompeu com esse modelo ao apresentar o entusiasmo como o motor fundamental da criação artística. Para ela, se a sociedade está em constante modificação, a literatura (arte) deve evoluir em conjunto.

Durante o período em que viveu na Alemanha, Staël conheceu pessoalmente Goethe e Schiller. Sabia que Goethe era o maior gênio do país, mas descobriu um homem reservado e frio, um contraste fascinante com sua poesia profunda e sentimental. Em sua obra, ela dedica páginas a Goethe, especialmente a peça Fausto. Para Staël, essa obra era a representação do que ela defendia no Romantismo, a eterna "busca pelo infinito". O personagem Fausto que apresenta um espírito inquieto, jamais se satisfaz com o mundo material, busca aquilo que ultrapasse a razão humana.

Embora Madame Staël seja conhecida pelos seus ensaios e artigos, publicou dois romances que na época fizeram sucesso, Delphine (1802), um romance epistolar que gerou escândalo porque defendia abertamente o divórcio. E o outro foi Corinne ou a Itália (1807), sobre uma jovem poetisa independente que lida com um amor por um nobre preso às tradições sociais. Este último romance marcou sua época, onde Staël criou a personificação do gênio feminino.

As ideias de Madame de Staël foram mais violentas que o exército inteiro de Napoleão, e o Imperador sabia disso. Elas ecoavam seus ouvidos, mesmo após a morte da escritora. Há boatos de que Napoleão reconheceu Madame de Staël como uma de suas melhores rivais, no entanto, se for verdade ou não, deixemos para nosso imaginário literário. 

Bruna Cunha

Bruna e Livros é canal do Youtube, perfil do Instagram e um clube de leitura. O que me faz tolerar a vida é a arte.

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